Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.(Rubem Alves)
quinta-feira, 23 de junho de 2022
terça-feira, 21 de junho de 2022
Então tem também a pressa de mulheres e homens que saem, exaustos, depois de um dia inteiro de trabalho, com as compras necessárias, rumo à escuridão. São heróis, dando os passos que faltam para a linha de chegada sabendo que estão sempre em último lugar. Uma corrida olímpica que acontece todos os dias em direção à linha de chegada. E a linha de chegada é uma bandeja de comida em frente à TV.(Elvira Vigna)

sexta-feira, 17 de junho de 2022
Saudade
Mal desperto ela entra sem nem pedir licença.
A saudade entra pela minha janela des ca ra da men te
trazendo estranhamento.
Fico parecendo uma gaveta lotada de guardados que incessantemente teima em não fechar
Se fechada à força...
Dói essa dor de saudade,
e saudade
é irritante, dorme e acorda com a gente.
Ela é tão abrangente que nem se pode dizer se há saudade alegre ou triste porque saudade não se descreve é um aperto no peito, é uma imagem breve ou algum leve pensamento.
Ela parece ser a dona do meu tempo presente
Sei que é passado, como passado não volta
Sinto muito, e tanto que prefiro aceitar o que não posso mudar
Me pergunto como podem os poetas fazerem dela rimas belas... talvez a entendam....
Eu não entendo ou quem sabe a rejeite somente.
Só sei dizer que saudade machuca a gente.(elpis)
A saudade entra pela minha janela des ca ra da men te
trazendo estranhamento.
Fico parecendo uma gaveta lotada de guardados que incessantemente teima em não fechar
Se fechada à força...
Dói essa dor de saudade,
e saudade
é irritante, dorme e acorda com a gente.
Ela é tão abrangente que nem se pode dizer se há saudade alegre ou triste porque saudade não se descreve é um aperto no peito, é uma imagem breve ou algum leve pensamento.
Ela parece ser a dona do meu tempo presente
Sei que é passado, como passado não volta
Sinto muito, e tanto que prefiro aceitar o que não posso mudar
Me pergunto como podem os poetas fazerem dela rimas belas... talvez a entendam....
Eu não entendo ou quem sabe a rejeite somente.
Só sei dizer que saudade machuca a gente.(elpis)

quinta-feira, 9 de junho de 2022
Testamento Lírico
Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.
E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.
Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.(Hilda Hilst)
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.
E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.
Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.(Hilda Hilst)

quinta-feira, 2 de junho de 2022
Em Pé
Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera
continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória
não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura
continuar em pé
quer dizer coragem
ou não ter
onde cair
morto.( Mario Benedetti)
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera
continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória
não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura
continuar em pé
quer dizer coragem
ou não ter
onde cair
morto.( Mario Benedetti)

quinta-feira, 26 de maio de 2022
terça-feira, 17 de maio de 2022
Momento
Enquanto eu fiquei alegre,
permaneceram um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpíssimo com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento súbito: é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça.
A vida é mais tempo alegre do que triste.
Melhor é ser..(Adélia Prado)

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